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Colégio de Presidentes(as) e Corregedores(as) dos Tribunais Regionais do Trabalho

NOTA OFICIAL DE SOLIDARIEDADE E APOIO À DESEMBARGADORA ADENIR CARRUESCO

O Colégio de Presidentes e Corregedores dos Tribunais Regionais do Trabalho (Coleprecor) vem a público manifestar sua irrestrita solidariedade e total apoio à Desembargadora Adenir Alves da Silva Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (MT), em face do episódio de racismo estrutural vivenciado por ela e corajosamente relatado em suas redes sociais.

O episódio ocorrido em um supermercado em Cuiabá transcende a esfera individual e acende um alerta fundamental sobre as engrenagens invisíveis do preconceito em nosso cotidiano. O que para olhares menos atentos poderia ser minimizado como um mero “equívoco” ou “mal-entendido” revela, na verdade, a materialidade do racismo estrutural: um olhar social historicamente treinado para associar, de forma automática, o corpo negro a posições de subalternidade e servidão, estranhando sua presença em espaços de liderança, poder e decisão.

Essa dinâmica de confinamento social e simbólico é amplamente documentada pela intelectualidade negra brasileira. A antropóloga e filósofa Lélia Gonzalez, pioneira no debate sobre raça e gênero no Brasil, já apontava como a sociedade brasileira estruturou uma “divisão racial do espaço”. Segundo Gonzalez, nossa cultura tendeu a naturalizar os lugares de prestígio e comando como exclusivos para pessoas brancas, enquanto aos corpos negros foi reservada, na mentalidade coletiva, a função compulsória da prestação de serviços. Quando a Desembargadora Adenir, despida de sua toga, é imediatamente interpelada como empregada do estabelecimento, testemunha-se a reprodução exata dessa lógica colonial que insiste em enxergar o negro apenas pelo viés da servidão.

Na mesma linha, a filósofa e ativista Sueli Carneiro discute as barreiras institucionais e sociais que operam para invisibilizar a capacidade intelectual e a legítima ocupação de espaços de poder por pessoas negras. O estranhamento social diante de uma mulher negra em uma posição de destaque na magistratura evidencia o quanto as estruturas de poder ainda resistem à pluralidade, tentando ditar, de forma velada, quais corpos têm o direito de governar, julgar ou liderar. Isso, indiretamente, leva a interpretações como as que puderam ser vistas no triste episódio relatado por nossa colega de colegiado.

A escritora e filósofa Djamila Ribeiro corrobora essa análise ao ressaltar que o racismo estrutural não se manifesta apenas em ofensas explícitas, mas sim na própria organização política, econômica e social que normaliza a ausência de pessoas negras em cargos de destaque e perpetua vieses inconscientes. Para desconstruir essa lógica, Ribeiro aponta que é preciso romper com a naturalização dessas condutas, compreendendo que o racismo organiza as relações sociais de forma profunda e precisa ser combatido ativamente por toda a sociedade.

A Desembargadora Adenir Carruesco, ao afirmar que fora da toga é vista apenas como “mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como servil”, sintetiza a urgência de desmontarmos essa estrutura discriminatória.

O Coleprecor reafirma que o combate ao racismo não é uma pauta setorial, mas um imperativo constitucional de defesa da dignidade humana e da igualdade, compromissos inegociáveis da Justiça do Trabalho. A magistratura deve, obrigatoriamente, refletir a diversidade da sociedade a que serve.

Ao abraçar a Desembargadora Adenir, este Colegiado reforça seu compromisso institucional com a construção de um Poder Judiciário antirracista, vigilante e empenhado na desconstrução de preconceitos históricos, para que o direito de existir com dignidade e respeito seja pleno a todos os cidadãos, independentemente de cargos, vestes ou cor da pele.

Desembargadora Herminegilda Leite Machado
Presidente do Colégio de Presidentes e Corregedores dos Tribunais Regionais do Trabalho (Coleprecor)
João Pessoa, 20 de maio de 2026